Capela Sistina: da sabedoria a audácia

Capela Sistina: da sabedoria a audácia

13.09.2020

Capela Sistina. Será que é realmente possível pensar em Roma ou mesmo na Itália sem lembrar desta que, para mim, é uma das mais incríveis obras já elaboradas por mãos humanas?

Remonta há pouco mais de vinte anos a primeira vez que vi esta incrível obra de Michelangelo, ao passear como um dos milhares de turistas pelo museu do Vaticano. Nesta minha visita à Itália eu conheci pela primeira vez este que seria meu continente de viagens constantes e de nascimento de empresas que mais tarde eu criaria.

A Capela Sistina, localizada no Vaticano, foi construída entre 1473 e 1481, por ordem do Papa Sisto IV, e mais tarde recebeu o nome em sua homenagem. Os artistas mais famosos da época, incluindo Sandro Botticelli, foram convidados a pintar as paredes do local. O teto também não foi ignorado: um mestre chamado Piermatteo d’Amelia desenhou estrelas douradas no fundo azul.

Em 1504, apareceram rachaduras no telhado, que foram cobertas com tijolos. No entanto, o papa Júlio II decidiu decorá-lo novamente e, em 1508, o famoso florentino Michelangelo Buonarroti começou a criar sua obra mais importante.

Desde 1871, a Capela Sistina é o único lugar onde ocorre a eleição do novo papa. De uma de suas janelas, uma fumaça branca é liberada anunciando que um novo chefe da Igreja Católica foi escolhido, e que em breve será apresentado ao mundo inteiro.

Se todos os caminhos levam à Roma, muitos outros levam você à Capela Sistina

Como já comentei em outros textos que produzi para o Conexão Europa, tenho como uma de minhas formações Teologia. Por muito tempo, desenvolvi muitas atividades dentro das diversas instâncias da Igreja Católica no Brasil e na Itália.

Uma das atividades que desenvolvi com uma das empresas que tenho foi desenvolver websites para organizações e igrejas espalhadas pelo Brasil. Em um destes serviços, desenvolvemos o site para a igreja Nossa Senhora do Brasil localizada na Av. Brasil, em São Paulo, capital.

Quando nos deparamos com uma das solicitações do pároco na ocasião, fiquei extasiado com o desafio. Replicar no site que estávamos desenvolvendo o teto da igreja que tem como uma das pinturas uma réplica da Capela Sistina. 

Impossível não se emocionar com este desafio. Foram semanas de trabalho até concluir esta incrível obra. Você pode conferir os afrescos do teto desta igreja buscando no google.

A Capela Sistina sempre esteve de alguma forma presente em minha vida. Em outra ocasião, já formado em Teologia, (sou Teólogo da Igreja Católica no Brasil com extensão e reconhecimento por Roma), visitei para estudos novamente a Capela Sistina. 

Nesta visita, tive a oportunidade de ficar na melhor posição para ver os afrescos. Cena eternizada no filme Anjos e Demônios do autor Dan Brown e protagonizada pelo ator Tom Hanks, em que você se deita na nave central, centralizando seu corpo em relação ao teto. 

Teto da Capela Sistina

Mantendo esta posição com seu corpo e mexendo na sequência em sentido horário compreender os afrescos e mergulhar no universo de Michelangelo. Sobre a história da Capela Sistina, gostaria de contar alguns segredos. 

Segredos que ninguém conta para você

Ao contrário da crença popular, Michelangelo não pintou o teto deitado em um andaime, mas em pé, jogando a cabeça para trás. Este trabalho afetou seriamente a saúde do mestre, que, na época do início dos trabalhos, em 1508, tinha apenas 33 anos.

Desenvolveu uma infecção no ouvido devido à tinta que caía em seu rosto, teve artrite e escoliose. Além disso, devido à falta de iluminação durante o trabalho, Michelangelo desenvolveu uma particularidade: durante um tempo, só conseguia ler levantando os livros acima da cabeça.

Michelangelo fez uso da técnica de pintura afresco, com muito gesso aplicado no teto, que o artista precisava preencher com desenhos em um dia. Ao contrário da técnica a seco, que envolve a pintura sobre gesso seco, o afresco permite criar trabalhos que durarão mais. 

Se a superfície rebocada não fosse preenchida com desenhos, a camada era removida e no dia seguinte uma nova era aplicada. No entanto, alguns dos detalhes das imagens foram criados a seco. Por isso, durante a restauração realizada entre 1980 e 1994, em alguns lugares as sombras das figuras e os olhos se perderam.

Acredita-se que Michelangelo criou todo o afresco sozinho. No entanto, os dados obtidos durante a restauração realizada entre 1980 e 1994 sugerem que o mestre foi auxiliado por pelo menos três pessoas que pintaram os putto (motivos ornamentais constituídos de figuras infantis, típicas da arte renascentista) e a imitação de detalhes arquitetônicos.

Nas partes laterais das cenas centrais do afresco, Michelangelo pintou 7 profetas de Israel e 5 sibilas, personagens que, de acordo com crenças antigas, previam o futuro. No total, eram 10 sibilas e ainda se desconhece por que o artista escolheu apenas 5 delas. De acordo com uma versão, elas simbolizavam diferentes lugares da Terra.

O mestre Michelangelo teve seu ápice com a Capela Sistina

O trabalho foi dividido em três etapas. A primeira terminou com o “Sacrifício de Noé” e a segunda com “A Criação de Eva”. Embora, em geral, os afrescos pareçam harmoniosos e, para uma pessoa comum, a diferença não seja muito perceptível, as imagens da “terceira etapa” são um pouco diferentes da primeira e da segunda. 

O fato é que depois de completar “A criação de Eva”, o andaime foi desmontado e transferido para outra parte da capela, assim Michelangelo teve a oportunidade de ver seu trabalho de baixo. O artista achou que as figuras eram pequenas e embaçadas, então, na terceira etapa, ampliou os personagens e simplificou seus gestos.

Para trabalhar em grandes alturas, Michelangelo projetou andaimes especiais que eram presos às vigas nas paredes da capela. Estes lhe permitiram trabalhar sem incomodar os que estavam abaixo.

Durante o período em que o teto foi pintado, celebravam-se missas no local. O gênio do Renascimento pôde contemplar seu trabalho completo de baixo apenas após a sua conclusão, quando os andaimes foram completamente desmontados. No teto, entre outros detalhes, aparecem 343 figuras.

As folhas e bolotas que estão nas mãos de alguns ignudi (jovens nus) são consideradas uma homenagem ao Papa Júlio II. O fato é que, no brasão de armas da família Rovere, à qual o papa pertencia, aparece um carvalho.

Nas lunetas do teto, no espaço abaixo dos arcos sobre as janelas, Michelangelo pintou os antepassados ​​de Jesus. Inicialmente havia 16 lunetas, mas 2 delas, localizadas na parede do altar, foram destruídas pelo próprio mestre para dar lugar a uma das partes mais importantes da composição “O Juízo Final”.

Embora geralmente se diga que o fruto proibido era uma maçã, na passagem “Queda do Homem, pecado original e expulsão do Paraíso”, Michelangelo representa a árvore do conhecimento do bem e do mal na forma de uma figueira. 

Curiosamente, nas partes direita e esquerda do fragmento, Adão e Eva são representados de forma diferente: após a queda (à direita), seus rostos são desfigurados e distorcidos com uma careta, enquanto antes de comer a fruta eles eram lindos. A propósito, a tentadora serpente é representada como uma mulher.

Michelangelo externava a igreja que ele acreditava e a criticava

Em nenhum lugar da pintura do teto aparece Jesus adulto (talvez ele esteja presente apenas na “Criação de Adão”, onde é pintado como uma criança). A explicação é muito simples.

No teto, Michelangelo criou cenas exclusivamente do Antigo Testamento, que prevê a chegada de Cristo, enquanto a história de vida do “Filho de Deus” é descrita no Novo Testamento. Ele aparece no mural do altar “O Juízo Final” e, ao contrário da tradição, sem barba.

Em 1564, o papa Pio IV ordenou ao artista Daniele da Volterra que “vestisse” as figuras mais “descaradamente nuas” da cena “O Juízo Final”, que se encontra na parede do altar da capela. O afresco, aliás, foi produzido por Michelangelo entre 1536 e 1541, ou seja, um quarto de século depois de trabalhar no teto. 

O artista cumpriu as instruções do chefe da Igreja Católica, por isso recebeu o apelido zombeteiro de Il Braghettone, literalmente “o veste as calças”. No entanto, durante a restauração, uma parte das figuras “se despiu”, e hoje podemos vê-las como eram quando foram feitas pelo grande florentino.

A imagem de Deus na “Criação de Adão” era absolutamente incomum para a época. Antes de Michelangelo, ninguém o havia pintado antes, muito menos em movimento, já que, como regra geral, o “Criador” só era retratado alegoricamente, na forma de mãos. 

Os pesquisadores também levantaram várias questões sobre a figura feminina do lado esquerdo de Deus. De acordo com uma das versões, é Eva, e as outras figuras representam os descendentes de Adão e a humanidade em geral.

Uma hipótese amplamente conhecida é de que os contornos do tecido em torno de Deus repetem os do cérebro humano, e as bordas das figuras das pessoas próximas a ele, suas seções. No entanto, há outra versão, segundo a qual o plano representa o contorno do útero e o véu verde, um cordão umbilical recém-cortado. 

Os pesquisadores afirmaram que, dessa forma, Michelangelo queria mostrar o processo idealizado do nascimento de uma pessoa, o que explica a presença do umbigo no corpo de Adão.

Embora virtualmente todos os afrescos de Michelangelo fossem pintados enquanto ele se movia através do telhado e dos arcos, as imagens de Deus foram criadas no final. O artista acreditava que, antes de começar essa figura, ele precisava aperfeiçoar suas habilidades.

Na cena de “O Juízo Final”, ao lado de Jesus aparece um dos apóstolos, Bartolomeu, segurando uma pele esfolada. Acredita-se que Michelangelo fez seu autorretrato para personificar o sofrimento causado pela relutância em trabalhar no afresco. Entretanto, muitos pesquisadores das obras do gênio do Renascimento rejeitam essa hipótese.

Visitar a Capela Sistina é mergulhar no Renascimento

Quando visitamos a Capela Sistina, temos a incrível oportunidade de mergulhar no Renascentismo e compreender um pouco deste momento histórico profundo de revoluções artísticas, políticas e humanas. 

O Renascimento foi um importante movimento de ordem artística, cultural e científica que se deflagrou na passagem da Idade Média para a Moderna. Em um quadro de sensíveis transformações que não mais correspondiam ao conjunto de valores apregoados pelo pensamento medieval.

O Renascimento apresentou um novo conjunto de temas e interesses aos meios científicos e culturais de sua época. Ao contrário do que possa parecer, o renascimento não pode ser visto como uma radical ruptura com o mundo medieval, mas sim uma transformação do ser humano e levando ele as reflexões provocadas. 

Conhecer a Capela Sistina nos leva a refletir sobre o nosso próprio momento de mundo. Hoje lançamos luzes sobre nossa humanidade e refletimos sobre os fantasmas da ignorância.

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