Brasileiras que empreendem na Itália

Brasileiras que empreendem na Itália

01.01.2021

É só falar na palavra empreendedorismo que o coração do brasileiro pulsa mais forte. 

Com o DNA formado de garra, superação e batalhas homéricas para ganhar o pão de cada dia, o brasileiro é inegavelmente um povo preparado para os desafios do negócio próprio.

Natural, portanto, que os nossos olhos brilhem diante da oportunidade de viver na Itália, ganhar em euros e trabalhar por conta própria.

Seus olhos também brilharam por aí, não é?

Pois nesse artigo nós vamos contar a história de superação e coragem de duas brasileiras que empreendem na Itália para preparar e inspirar você que também tem esse sonho.

Vem com a gente!

Empreender: histórias de brasileiras que abriram seu próprio negócio na Itália

Mulheres fortes, decididas e independentes, Padrya e Priscilla foram para Europa em busca de um mestrado, acabaram casando com italianos, se estabelecendo no país da bota e vendo no empreendedorismo a oportunidade de ganhar a vida na Itália.

Conheça as histórias inspiradoras dessas duas brasileiras, uma cearense, outra catarinense, que imigraram para a Europa e decidiram abrir uma empresa na Itália.

Padrya Bucar: cearense de berço, italiana de coração

A cearense Padrya Bucar tinha planos bem diferentes para a sua vida profissional quando chegou à Itália em 2006. 

Com dez anos de experiência consolidada na sua área de formação, Padrya apostou na profissão que havia escolhido no Brasil para viver em Florença, terra do então futuro marido. A cearense correu atrás da validação do seu diploma de psicóloga na Itália e iniciou os estudos da língua italiana, idioma que até então não dominava.

Com a validação do diploma em mãos, Padrya se inscreveu no Conselho de Psicologia do país, mas na hora de buscar por um emprego na área, as coisas não aconteceram do jeito que ela imaginava.

“Recebi muitos ‘nãos’ até o dia em que um médico italiano, proprietário de um hospital na cidade, abriu o jogo. Ele me disse: ‘entre você e uma florentina, que estudou em Florença, eu vou sempre preferir contratar uma florentina’.”, lembra Padrya hoje, sem ressentimentos.

A franqueza daquele médico a fez virar a chave: “naquele dia eu vi que eu deveria seguir outro caminho. Mas tudo aquilo, enterrar minha carreira de psicóloga, foi muito doloroso para mim”, contou-nos ela.

Nesse meio tempo, Padrya engravidou e se viu sem escolha: era preciso encontrar um plano B. 

Sem experiência em vendas ou qualquer outra área, ela conta que chegou a ser baby-sitter, faxineira, mas eram atividades informais, sem segurança alguma. Foi aí que ela decidiu trabalhar por conta própria: Padrya resolveu ser guia de turismo da cidade pela qual ela havia se apaixonado.

“Na época eu acreditei que seria fácil; pensei que trabalhar com turismo não exigia muita preparação”, disse Padrya, rindo hoje daquele pensamento.

A brasileira descobriu que a atividade de guia era regulamentada pelo governo italiano e que, para exercê-la, precisaria passar em um concurso público. Mas não só isso. Descobriu que para fazer a prova, eram exigidas 800 horas de estudos teóricos e práticos.

Foi um ano inteiro de curso e muita dedicação até a data da prova. Infelizmente, Padrya não foi aprovada na primeira oportunidade e precisou refazer as 800 horas de aulas para uma nova tentativa. Mas, outra vez, não teve sucesso.

No terceiro concurso prestado, com muitas horas de estudo e de privação de contato com o marido e a filha pequena, contabilizando ainda duas hérnias e uma crise de catapora, ela finalmente pode comemorar a nova profissão e o início da sua carreira empreendedora na Itália.

Padrya Bucar, Guia Oficial de Florença

Se, por um lado, o tempo de estudo dedicado à prova foi uma fase muito difícil na trajetória da brasileira, por outro, ele deu a oportunidade a Padrya de conhecer e analisar muito bem o mercado em que ela estava se inserindo.

“Lá em 2013 eu já percebi que era um mercado muito competitivo, que o turismo coletivo dos grandes grupos estava saturado e que era essencial ter um nicho diferente de atuação,” contou.

Padrya segmentou sua atividade para criar experiências totalmente personalizadas, onde os tours por Florença são montados de acordo com o perfil do cliente. Nenhum roteiro é igual ao outro e foi nessa sacada que ela se diferenciou no mercado, conquistando clientes como a empresária Consuelo Blocker, moradora da cidade italiana há trinta anos.

Além do investimento inicial com os cursos, Padrya reservou uma parcela do seu capital com o desenvolvimento do seu site e hoje faz questão de investir mensalmente em marketing digital para atingir novos potenciais clientes pelas redes sociais.

Afora isso, Padrya também resolveu formalizar sua atividade e adquirir a sua partita IVA, correspondente ao CNPJ no Brasil. 

Apesar de reduzir sua margem de lucro, Padrya só vê o lado positivo de trabalhar no mercado formal: 

“Quando eu pago essas taxas, eu ajudo o governo a melhorar o sistema de saúde, eu sinto retorno quando vejo obras sendo feitas nas ruas, o lixo sendo coletado… dá gosto de pagar os impostos aqui.” 

Além disso, a brasileira reforça o quanto essa decisão foi essencial para que ela pudesse receber o respaldo do governo italiano e enfrentar com um pouco mais de tranquilidade esse momento difícil que o setor do turismo vem enfrentando com a pandemia.

Perguntada sobre as dificuldades de empreender na Itália, Padrya ressaltou a burocracia, as várias exigências legais e a necessidade de pagar um contador para lidar com todas essas questões.

Apesar de todas essas batalhas travadas para empreender e encontrar seu lugar sob o sol da Toscana, Padrya não se mostra arrependida de nada: “Eu tenho amor em passar todo o conhecimento que eu tenho sobre a cidade.” E completa: “o que eu mais gosto de fazer é ir para o centro de Florença e trabalhar.”

Se a psicóloga “anônima” formada no Brasil não foi bem aceita no passado, a brasileira, que mostrou força de vontade e obstinação para aprender italiano e conseguir a certificação de guia de turismo, foi vista com outros olhos pelos italianos. 

Com uma visão estratégica, muita perseverança e o seu jeito destemido – ou “cara-de-pau”, como Padrya mesma define -, a cearense foi conquistando confiança e abrindo portas na Itália.

Hoje, Padrya guia turistas brasileiros pelas ruas de Florença como uma legítima florentina, fazendo parcerias com restaurantes tradicionais da cidade, vinícolas conceituadas e outras empresas da magnitude de Gucci e Salvatore Ferragamo.

Como dica para o brasileiro que quer empreender na Itália, a brasileira que já soma catorze anos em solo italiano reforça a necessidade de aguardar o desenrolar do momento atual e avisa: “não fantasie achando que a Itália é só ‘comer, rezar e amar’. Faça análise de mercado e esteja preparado para colocar a mão na massa.

Priscilla Silva, a catarinense apaixonada pela Costa Amalfitana

Formada em Relações Internacionais, a catarinense Priscilla Santos da Silva sabia que precisava somar experiências profissionais fora do país para ganhar pontos no currículo e na carreira.

Seu plano inicial era conseguir uma bolsa de estudos no exterior que lhe permitisse trabalhar durante meio período e, com esse objetivo em mente, inscreveu-se em programas de bolsas de Universidades de vários países, da Índia à Malta.

Mas foi através de Salvatore Aceto, um italiano amigo da família, que ela teve a oportunidade de morar e trabalhar no exterior e começar a escrever a sua história empreendedora.

Mas isso veio mais tarde.

Quando chegou à Itália sozinha e sem domínio da língua italiana em 2015, Priscilla não encontrou uma colocação em nenhuma empresa pública ou organismo internacional como pretendia quando saiu do Brasil. 

Seu amigo havia conseguido apenas estágios não remunerados em hotéis e em uma agência que oferecia passeios guiados aos turistas. Não era o esperado, mas Priscilla disse sim ao convite e embarcou para a Costa Amalfitana, um dos destinos turísticos mais bonitos do planeta.

Foi já em solo italiano que a brasileira viu seu esforço para conseguir estudar e morar definitivamente no exterior darem os primeiros frutos.

“Nesse meio tempo, quando eu ainda trabalhava em um dos estágios, fui surpreendida com um e-mail da Universidade de Salerno; disseram que estavam analisando meu currículo e que eu teria grandes chances de conseguir a bolsa de estudos que havia me inscrito meses atrás”, lembra Priscilla. 

Apesar do sonho de estudar na França, a catarinense agarrou a oportunidade de fazer mestrado em diplomacia na Itália. Priscilla correu atrás do seu visto de estudante, mudou-se para Salerno e começou a escrever outro capítulo da sua história na Itália, um capítulo cheio de desafios:

Eu cheguei à Universidade pensando que era como na Costa Amalfitana, onde as pessoas falavam inglês, mas não. Os jovens não falavam inglês, a cidade era muito pequena e os primeiros meses foram muito difíceis. Eu não sabia me expressar em italiano e as pessoas não me entendiam.

Com muito estudo e dedicação, a brasileira superou a dificuldade com a língua, ajustou suas atividades acadêmicas e foi em busca de empregos na Itália, mas novamente Priscilla encontrou barreiras. “A inserção de brasileiros no mercado de trabalho italiano, para trabalhar em empresas, nos escritórios especificamente, é muito difícil”, relatou ela.

Priscilla se lançou então nos empregos temporários. Trabalhou novamente na área do turismo, inclusive em bares e confeitarias, onde fazia expediente aos finais de semana para conseguir uma renda extra.

Foi em meados de 2017, ainda em meio aos estudos, que Priscilla teve seu primeiro insight para o empreendedorismo. A ideia de trabalhar como celebrante de casamentos simbólicos veio através de um convite inusitado: 

“Uma italiana que organizava casamentos aqui na Costa Amalfitana me chamou para fazer a celebração de um casamento de um casal brasileiro. Eu não sabia exatamente como funcionava, mas topei o desafio”, lembra.

Foi a partir daí que Priscilla despertou seu olhar para uma nova profissão – pela qual a brasileira acabou se apaixonando – e para o potencial da Costa Amalfitana como destination wedding, um lugar no exterior, escolhido pelos noivos, para celebrar a união de uma forma especial. 

Afinal, se o trabalho formal em uma empresa italiana era difícil conseguir naquele momento, empreender em uma região com um número expressivo de turistas estrangeiros era uma imensa porta aberta.

A partir daí, Priscilla inverteu esforços  e investiu na nova carreira, fazendo vários cursos, trabalhando em parceria para várias empresas do segmento, até abrir a sua empresa em janeiro de 2020. 

“A Costa Amalfitana”

Priscilla lembra que no início dessa jornada empreendedora, antes mesmo de abrir seu negócio próprio, ela encontrou muitas portas fechadas.

“Mandei vários e-mails para planejadoras de casamento na Itália colocando-me à disposição para trabalhar em casamentos de brasileiros aqui na Costa Amalfitana, mas ninguém me respondeu.

Sua sorte mudou no dia em que Priscilla, vasculhando a internet pelo celular na sala de espera de um consultório médico, encontrou um site de uma wedding planner (planejadora de casamento) italiana com dizeres convidativos em língua portuguesa: “venha fazer parte do meu time.” 

No mesmo momento, a brasileira escreveu para a empresa e, para sua surpresa, recebeu resposta logo em seguida. Depois de uma entrevista por vídeo-chamada, Priscilla se tornou a celebrante de casamentos simbólicos da agência, em língua portuguesa, em todo o sul da Itália.

Agora com experiência e um nome já conhecido na Itália no mercado de celebrações, Priscilla passou também a ajudar no planejamento de casamentos e ser o suporte de outras agências italianas na Costa Amalfitana.

“Como celebrante de casamento eu conheci toda a Itália”, conta Priscilla. “Além da Costa Amalfitana, já celebrei casamentos na Toscana, na Apúlia, em Roma…”, acrescenta.

Um dos casamentos inesquecíveis da sua carreira foi quando celebrou e ajudou na logística de um verdadeiro casamento de Hollywood. “Eram apenas oito convidados, mas tudo era muito especial: a mesa vinha da Toscana, o tapete, da Califórnia, a florista era da Espanha”, conta com orgulho. 

O casamento que teve a Costa Amalfitana como cenário e Priscilla como celebrante chegou a ser estampado nas páginas da Martha Stuart, a famosa revista americana sobre o tema.

A marca A Costa Amalfitana já tem três anos e, hoje, além de ser o nome forte dos casamentos simbólicos na Costa, Priscila se valeu do domínio das línguas estrangeiras para se diferenciar no mercado e ramificar a sua atuação.

Seu portfólio conta ainda com inúmeros trabalhos de consultoria para turistas brasileiros e estrangeiros que visitam a Costa Amalfitana, além de assessoria na execução de campanhas publicitárias, especialmente de moda, coordenando equipes completas de fotógrafos, modelos, videomakers, cabeleireiros e maquiadores. 

As pedras no caminho da vida empreendedora

Apesar de possuir um CNPJ no Brasil, com o aumento dos serviços prestados a estrangeiros, Priscilla sentiu a necessidade de abrir sua empresa na Itália, mas relembra como foi difícil conseguir a sua partita IVA:

“Como eu era brasileira, com permissão de residência por ‘contratto di convivenza’, nenhum contador da região sabia quais os caminhos legais para eu abrir a minha empresa aqui. Ninguém queria ser meu contador”, lembra ela. 

Passaram-se meses até encontrar alguém que aceitasse o serviço e finalmente abrisse a empresa para a brasileira que, nessa altura, já morava com o atual marido.

Além disso, Priscilla não esconde as dificuldades de trabalhar com a sazonalidade. “Durante quatro meses temos muito trabalho e depois a demanda cai, mas é preciso pagar os tributos o ano inteiro.”

Os desafios de abrir uma empresa na Itália, especialmente voltada para o turismo e para o público estrangeiro, ainda estão sendo superados pela empresária, pois a pandemia do coronavírus prejudicou em cheio o seu segmento. 

Para quem está pensando em empreender na Itália, entretanto, Priscilla acredita que duas questões podem fazer muita diferença para o sucesso dessa empreitada: 

“Primeiro, a pessoa deve falar bem o idioma, do contrário as coisas ficam mais difíceis e ela pode chegar até mesmo a desistir do seu projeto”, assinala. 

Já o outro conselho é ir para a Itália e se fazer conhecer no local antes de começar seu negócio. “Você precisará conhecer pessoas que te ajudem e é fundamental que os italianos conheçam seu caráter, sua índole, para dar esse suporte”, finaliza.

Desafios de empreender na Itália

Engana-se o empreendedor brasileiro que acredita que terá menos desafios de empreender na Itália que no Brasil.

As histórias que contamos acima nos dão muitas pistas disso, mas quando se tem o italiano como público-alvo, o desafio pode ser ainda maior.

Apesar da experiência de gerir o próprio negócio na sua terra natal contar muito, o empreendedor estrangeiro precisa primeiro lidar com as diferenças culturais. 

Para quem pretende abrir uma confeitaria, por exemplo, é provável que terá que adaptar a quantidade de açúcar das receitas brasileiras para agradar o público europeu.

E assim funciona também com outras questões corriqueiras da vida empreendedora, como práticas de descontos, formas de pagamento e de publicidade dos produtos. O que dá certo no Brasil não dará necessariamente na Itália.

Por isso, a dica fundamental de toda essa conversa é que antes de você sonhar em ganhar a vida como empreendedor na Itália, pesquise a fundo para compreender bem o mercado no qual deseja se inserir.

Ter um bom plano de negócios que contemple formas de adaptação da atividade e dos produtos à cultura de consumo do local é o primeiro passo para empreender com sucesso na Itália.

Se você pensa em investir na Itália ou abrir uma empresa na Europa e quer fazer isso com segurança e assertividade, confira os nossos serviços e conte com uma assessoria especializada no mercado europeu para concretizar com sucesso essa caminhada!

Leia também: Incentivos do governo para abrir uma empresa na Itália.

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