Assis, a cidade mística

Assis, a cidade mística

27.07.2020

Muitos meses já haviam se passado e eu continuava estudando em Roma. Eram profundos os temas uma vez que mergulhava nos originais para fundamentar aquele que seria o mais intenso estudo que eu já havia feito sobre Teologia. Bem, sobre este Mestrado que não finalizei conto em outro artigo.

Neste período intenso de estudos na Itália, muito pude aprender deste país que amo demais. Sua história, costumes, cultura e espiritualidade são únicos e posso confessar que embora tenha raízes espanholas em meu sangue, tanto na cozinha como na língua, nunca pude ficar muito longe da Itália. Dos mais de três anos aprendendo a língua italiana, a cultura, as cidades, pensadores e filósofos despertam em mim uma enorme vontade de conhecer mais sobre este país.

Esse é o primeiro artigo que escrevo das minhas viagens e estudos que já fiz na Itália. Deixe seu comentário se gostou do artigo para que seja alimento para minha alma e combustível para contar mais das experiências que tive por lá.

Espiritualidade em Assis

Lá se vão quase quinze anos desta experiência em Assis. Era outono na Itália, tempo adorável onde as plantas ficam com uma beleza única e tenho a impressão que cada árvore pode contar muito do que já viu acontecer sob suas raízes. Eu estava com duas semanas tranquilas e esperava um grupo do Brasil, composto em sua maioria por peregrinos com mais de sessenta anos. Eles estavam chegando de Jerusalém, depois de mais de vinte dias percorrendo todos os cantos daquele país. Eu e eles, bem como um padre que fora meu professor, partiríamos de Roma para o centro da Itália em um ônibus com direção certa para Assis. 

Após dois dias visitando Roma, começamos nossa jornada rumo a Assis. A viagem é rápida, leva pouco mais de duas horas. O caminho, porém, reserva enorme beleza e vale a pena circular de carro pelas cidades da região da Úmbria. Nossa chegada em Assis não poderia ser melhor, com cerca de quarenta pessoas, eu liderava o grupo em conjunto com meu professor. Seriam dias intensos com muita história, espiritualidade e conexão com os valores que São Francisco de Assis havia deixado impresso naquele local. 

Nosso primeiro encontro se deu justamente na propriedade que ficaríamos hospedados por quatro dias. Logo ao chegar todos foram descansar e pouco tempo depois nos reunimos para o jantar. De imediato, além do sabor característico da massa, o incrível vinho servido se apresentava como algo incrível, ainda mais ao sabermos que era produzido ali mesmo na propriedade. Vinho da uva Sangiovese que tanto São Francisco de Assis deveria ter bebido. 

Primeiro dia em Assis: portal e espiritualidade

No primeiro dia de caminhada pela cidade, toda sua mística é apresentada a nós logo no portal de entrada. Assis é uma Cidade fortificada assim como outras na Europa que guarda boa parte da sua história e construções desde sua fundação a mais de mil anos. No portal, podemos ler as inscrições que exploram o valor de compreender nossa relação com a natureza e nossa responsabilidade enquanto seres humanos por toda a vida da terra.

A Basílica de São Francisco de Assis além de patrimônio mundial pela Unesco foi o lar de São Francisco. Místico da história do cristianismo que tinha dentre suas predileções a costumeira frequência de conversar com as plantas e com os animais. Francisco, com seu testemunho de vida, levantou ânimos na Igreja da época por questionar a luxúria e a riqueza dos sacerdotes. Ele Francisco, havia feito votos de pobreza e dava seu testemunho com sua vida. Vivendo sempre com doação total ao outro e a natureza. 

Basílica de São Francisco de Assis
Basílica de São Francisco de Assis

Assis não guarda suas belezas onde não se pode ver. Caminhar pela cidade já é, sem nenhuma dúvida, um resgate a história da humanidade. Pontes, prédios e construções romanas estão por toda a parte. Arrisco em dizer que quase todos os locais que podemos ver são pontos de parada. Não é necessário nada além dos próprios pés para explorar a cidade e conhecer desde pequenas lojas com arte local a pequenos restaurantes que guardam a culinária típica de uma região que em termos históricos as vezes tenho a impressão que parou no tempo. 

As incríveis massas, as variantes dos lanches de panceta e os pães são parada frequente e obrigatória. Pão inclusive é algo que parece um tesouro histórico. Suas formas, fermentações e variantes abrem um mundo novo de sabores e sensações. Agora falando de experiências gastronômicas neste pedacinho de mundo, jamais poderia ser possível não experimentar um prato com um toque final das incríveis trufas negras. Um crime assim seria como ir a Roma e não ver o papa.

A mística de Assis remonta a vida de Francisco. Sua vida sempre ligada a seu povo e costumes, atualiza para nós a harmonia com a demais forma de vida da terra. Lições que parecem mais atualizadas como nunca. Como é místico conectar nossa espiritualidade a energia que Assis emana, sua culinária também nos remete a busca da ancestralidade de um povo que através da sua arte no preparo dos alimentos conecta o passado ao presente como se estivéssemos todos em um mesmo tempo e espaço. 

Amo cozinhar e quando estou em países que sua culinária é muito mais do que elementos alinhados, mas sobretudo o ato de preparar um alimento possui profunda conexão com a história do seu povo, suas raízes e costumes, eu entendo o que Francisco dizia sobre o transcender. Alguns historiadores, e isso é possível ver em dezenas de obras de arte espalhadas pela cidade ou mesmo na Basílica de São Francisco, mostram Francisco em um quase transe meditando ou levitando como se para ele realmente tempo e espaço não existissem. 

Uma visita ao museu Muma ou ainda ao Assisi Diocesan Museum podem fazê-lo compreender o significado da palavra grega Koinonia que tanto Francisco pregava em suas inúmeras andanças pelos povoados. Para ele, estar em sintonia com a vida era viver em plena harmonia com nossa mãe a Terra. Desta forma, apenas poderíamos viver toda a felicidade e compreendermos a gratidão se literalmente a Koinonia fosse algo presente em nossa vida. Koinonia é nada mais que ser responsável pela vida seja ela em qual forma for. Compreender a vida é compreender a Terra. 

Lição importante

Não é necessário ser religioso para viver a espiritualidade. Não é necessário ter um deus para compreender que estamos conectados. Não é necessário dizer não a tudo aquilo que simplesmente ainda não entendemos. Assis é um breve sopro na história da humanidade de um lugar que sobreviveu a quase tudo. Guerras e terremotos, o último muito forte em 1997 que danificou muito a cidade. Em Assis, tudo remonta nossas origens. Em Assis, nada lembra o velho ou passado. Assis é uma mostra do mundo que queremos com sua mística que nos conecta aos valores que importam verdadeiramente.

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